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Alemão: why not?

por Ana Margarida Abrantes (Universidade Católica Portuguesa)

Em época de crise, ecoam os lamentos sobre o que está mal. E todos parecem ávidos de juntar à extensa lista de problemas mais uma pincelada de negro, quem sabe se na desorientação de não encontrar uma saída, ou no prazer mórbido de cultivar a desgraça. Pois bem, é o momento de inverter a tendência e começar a tratar o problema pelo lado positivo. Porque este existe.

Há sempre uma razão. Neste caso, há até várias. Mas identifique-se a crise primeiro. Há cada vez menos alunos no sistema de ensino português a aprender alemão. Primeiro, porque há estatisticamente menos alunos no sistema, no seu conjunto. Depois, os planos curriculares limitam as oportunidades às línguas estrangeiras, colocando-as a par de outras disciplinas num painel de opções. Além disso, as outras línguas estrangeiras que se aprendem depois do inglês enfrentam os mesmos condicionalismos, o que faz aumentar a concorrência, sem que esta se traduza sempre na competitividade saudável por uma oferta mais qualitativa. E por fim a desorientação dos agentes de alemão como língua estrangeira não ajuda a convencer o público alvo, os alunos, de que vale a pena aprender alemão. É imperativo salvaguardar a aprendizagem do alemão em Portugal. Mas a que preço? E como? Pois bem, antes de mais é necessário tornar claro porque é que a opção pelo alemão é uma aposta certa hoje. E para isso, reúnam-se argumentos (Alemão: Why not?), contra-argumentos, factos e propostas.

O alemão é a língua mais falada da Europa e a segunda mais aprendida, depois do Inglês. Se este ainda não é uma argumento imediato para aprender esta língua, pensar sobre as implicações deste facto, pode ser. A Alemanha é o centro económico europeu por excelência e o maior exportador de turistas para os outros países da União.

Não chega saber inglês? Não! Saber inglês é condição essencial. Saber alemão é uma mais valia. Dentro de uma a duas décadas, todos os cidadãos nacionais saberão falar inglês. Esta é uma aposta decisiva do actual governo constitucional, cujo plano tecnológico assume o inglês como prioridade desde os primeiros anos do ensino obrigatório. Mas há muito que os cidadãos se aperceberam que sem o inglês as suas oportunidades ficam comprometidamente reduzidas. Assim sendo, tornando-se o inglês um elemento básico de alfabetização, a mais valia de cada um estará na mestria de outras línguas, para além desta.

A Europa há muito que se apercebeu disto e definiu como meta para os seus cidadãos a competência em pelo menos duas línguas estrangeiras para além da língua materna. De resto, esta é uma tradição do continente, em que cerca de metade dos cidadãos são bilingues, devido à história e à configuração dos países onde vivem. Mas a pergunta mantém-se: porquê o alemão? A questão de quais as línguas a aprender tem uma resposta diferente nos vários países da Europa. No caso português, os alunos que hoje aprendam alemão na escola aumentam consideravelmente as suas oportunidades no futuro. A Alemanha continua a ser o maior investidor no país, gerando necessidades no sector da economia: competência em alemão de negócios para fazer face ao dia-a-dia da comunicação nas empresas, tradução de documentos, representação em feiras internacionais, são apenas alguns exemplos. No sector do turismo, Portugal necessita de apostar na qualidade, se quiser competir com outros destinos de sol, mar e cultura na Europa. A simpatia do acolhimento na língua de quem nos visita é um sinal de qualidade. Assim como a oferta de um programa cultural baseado num conhecimento sólido da história e das artes. Este é o turismo do futuro, procurado por um público exigente. Grande parte deste público fala alemão. Ora, em nenhum destes casos (economia e turismo) o alemão é a componente central de estudos. Nem deve sê-lo, porque isoladamente é insuficiente. Mas pode e deve ser uma competência adicional.

Os alunos que hoje aprendam alemão na escola não recearão no futuro o desafio de estudar numa universidade alemã. Na Alemanha discute-se hoje o perfil da universidade de elite, centrada na qualidade e no avanço científico. É certo que neste perfil se enquadra um ensino ministrado em inglês, para que possa apelar a pessoas qualificadas de todo o mundo, e concorrer assim com universidades norte-americanas. Assim sendo, o aluno português que mais tarde deseje estudar numa destas universidades de elite, tem sobretudo de saber inglês. Mas também é verdade que terá de fazer o seu dia-a-dia na língua do país, se quiser participar activamente na realidade da nação que os acolhe.

Para além destes factores imediatos, há outros menos pragmáticos, mas igualmente relevantes para aprender alemão. Uma parte significativa dos grandes pensadores e humanistas ocidentais desenvolveram os seus pensamentos em alemão. O mercado livreiro alemão é um dos mais importantes no mundo: quase 20% dos livros editados em todo o mundo são em língua alemã. A segunda língua mais usada na Internet é o Alemão: pense-se só como saber esta língua pode ajudar a ganhar informação em sites internacionais.

E o papel dos pais? É sem dúvida fundamental. A geração dos pais dos alunos de hoje cresceu num sistema educativo que espelhava a influência do francês na vida cultural do país. A realidade é hoje muito diferente e sobretudo mudou muito depressa, numa dinâmica que acompanha os tempos. Se é certo que há educadores a quem causa incómodo que os filhos aprendam o que eles não sabem, os pais não devem sentir-se ameaçados por este conhecimento. Ele não põe em causa o seu papel de agentes educativos privilegiados na vida dos seus filhos. Hesitar em motivá-los ou mesmo deixá-los aprender uma língua, porque a ela associam preconceitos infundados, é roubar aos seus filhos oportunidades pessoais e profissionais no futuro.

Não se aplicarão muitas destas questões igualmente ao espanhol, língua que tem vindo a crescer no sistema educativo português? Sem dúvida. No domínio da economia e do turismo, os números do investimento espanhol aproximam-se. E também é verdade que cada vez mais alunos procuram a Espanha como destino para os seus estudos. No entanto, pensemos no esforço de aprendizagem das duas línguas. Aprender uma língua estrangeira com a qual a nossa tem pouca familiaridade exige mais tempo, pelo que esta aprendizagem deve começar mais cedo. Aprender alemão desde o sétimo ano de escolaridade seria uma opção acertada. E não impeditiva da aprendizagem de outra língua mais tarde, o que vai de encontro à diversidade linguística e à aprendizagem ao longo da vida, estandartes da União.

Mas o alemão é difícil, as notas dos alunos baixam. Aqui os professores têm um papel decisivo. Os bons professores sabem que não é assim, porque gostam da matéria que ensinam e aprenderam-na com sucesso. O que impede os alunos de obter o mesmo sucesso? Os professores devem combater este preconceito com novos métodos, matérias relevantes, um ensino construído à volta do que o aluno vai aprendendo, convencendo-o do que ele já sabe e não da gramática que ainda não recita de cor! Quanto às notas, se a abordagem for esta, elas sobem. E se não chegarem ao 20, é hora dos alunos, pais e professores se questionarem do que é mais importante: um número numa pauta, quantas vezes pouco reveladora das verdadeiras capacidades, ou o alargamento do horizonte de oportunidades futuras dos jovens de hoje?

Sou uma aprendente entusiasta do alemão desde a primeira hora e aprendi esta língua no sistema de ensino português. O mesmo a que ninguém poupa críticas, lamentos intermináveis em épocas de crise como a que vivemos. Hoje, ensino alemão e investigo esta língua com a absoluta convicção de que vale a pena. E acima de tudo, certa das razões que para mim são válidas para aprender e saber esta língua. É esta mesma certeza que gostaria de ouvir de outros, numa corroboração ou ataque às ideias que aqui ficam. A crise que o alemão vive hoje em Portugal precisa de uma discussão pública e participada, em que todos falem, oiçam e pensem. A solução para a língua alemã só se encontrará quando os que a ensinam e os que a aprendem puderem dizer com a mesma naturalidade: Alemão, why not?

(Este artigo de Ana Margarida Abrantes, UCP, Viseu, foi publicado - em parte - pelo jornal O Público, no dia 8 e Maio de 2005.)